Semper Magis

Por os talentos a render

Por os talentos a render! Esta frase do Evangelho assusta muitas pessoas que, além de nao terem apreco por si mesmas, se revoltam, dizendo: “Que culpa tenho eu por Deus nao me ter dado mais qualidades?” Mas talentos sao moedas, nao qualidades naturais. O que esta em causa na parabola é o que cada um faz com as oportunidades de amar e servir que tem no dia-a-dia. So isso se pode comparar, uns tiram partido e crescem, outros bloqueiam e tentam negociar, outros ainda fogem ou deixam passar. Para todos cada dia traz muitas oportunidades.’

Ando a enganar-me a mim mesmo?

“Dar-se sem se dar”. Querem ter a sensação de que amam mas sem correr nenhum risco pessoal. Achamos mais fácil guardar uma certa distância para não sermos afectados.
“Fazer coisas em vez de estar”. Pensam que o amor se pode trocar por fazer coisas, não entendem que consiste sobretudo em estar presente.
“Dar a mão sem se abaixar”. Ninguém salva a partir duma posição de superioridade. Amar é aceitar chegar a perder para que o outro fique a ganhar.
“Dar para se preencher”. É verdade que todo o amor enriquece quem o dá. Mas é também verdade que amar é querer o bem do outro e não o nosso.
“Vender-se para agradar”. O amor não te faz ser outro diferente de ti, faz-te ser o melhor de ti próprio. Se deixares de ser quem és para Me agradar estaria tudo estragado.
“Manipular o outro para não o perder”. Há quem tente tornar-se imprescindível para que o outro não possa viver sem ele.

Nuno Tovar de Lemos, sj. in O Principe e a Lavadeira.

O que distingue um Amigo Verdadeiro

Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar e a atenção que se pode dar — todas estas coisas são finitas e têm de ser partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já de si pequena (nós) por muitas pessoas.

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém, chega a ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta.

Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É uma coisa à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação. A amizade é vista, e é verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser humano um «amigo». Todos conhecemos o género — é o «gajo porreiro», que se «dá bem com toda a gente». E o «amigalhaço». E tem, naturalmente, dezenas de amigos e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices, correligionários, colegas e outras coisas começadas por c.

Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos. Os nossos inimigos, ao menos, não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para mais, pífio e arrependido. Para se ser um bom amigo, têm de herdar-se, de coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa. E fácil estar sempre do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão. O amigalhaço, em contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana.» Como se pode ser amigo de um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus. A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser.

Miguel Esteves Cardoso, in ‘Os Meus Problemas’

Fechado para Balanço

Recordo-me fugazmente, de uma vez, quando era miúdo, ir a passear pela rua nestes primeiros dias do ano, de mãos dadas com os meus pais e a minha perspicácia levar-me a reparar que algumas lojas estavam fechadas e tinham tinham inscrito num letreiro algo como “fechado para balanço”.

Na altura não percebi o que significava, ao fim de contas era dia de semana, estavamos num novo ano que todos esperavam com ansiedade e expectativa, e a avaliar pelos festejos dos dias anteriores, as pessoas deviam estar contentes e a trabalhar… Não sabia o que era um “balanço”.

Acabaram agora 48h que o novo ano começou, as mesmas que fizeram o anterior chegar ao fim.

Este foi para mim o tempo, de quando me lembrei desse episódio da minha infância, voltar a repeti-lo. Dar as mãos aos meus pais e a quem caminhou comigo ao longo do ano, e deixar-me passear pelo passeio. Olhar apenas para as montras das lojas. Afinal, pouco mudou e tantos anos depois continuam a estar fechadas nestes dias… Recordar-me em quais entrei, o que procurei nelas, o que trouxe comigo, o que me proporcionaram, o que lá deixei. Na caminhada recordei também quem entrou comigo em cada uma delas. Quem me acompanhou mesmo quando procurava algo no local mais recôndito ou algo que acreditava existir mas loja após logo recebia “não’s” consecutivos. Quem mesmo perante o desânimo acreditou comigo. E quem se deu por vencido, simplesmente pelo cansaço ou porque duvidou de mim. Guardo todos comigo.

Fazer um “balanço” é muito importante. Não é “fechar” como as lojas, mas “abrir” e partir à descoberta. Não é perder tempo, é não perder tempo! É empreender tempo a ganhar tempo! É não voltar a usa-lo de forma menos correcta.

Hoje percebo a importância desses letreiros. Assim como as lojas precisam de fazer um balanço contabilistico, também no nosso coração há um balanço a fazer.

E percebo também todos os festejos, manifestações de alegria, fogos de artificio, festas, saídas à noite, que acontecem nestes dias.

Porque como Saint Exupery dizia, é importante criar ritos. É o rito que faz com que um dia seja diferente de outros dias, uma hora, das outras.

E é isso que nos faz estar predispostos a esse balanço. A receber um dia igual, um mês igual, um ano igual mas como se nos fossem revelados pela primeira vez.

2013 foi para mim um ano cheio.

Cheio de momentos, de experiências novas, de conquistas. De muitos ensinamento.
Também de momentos de tristeza, que foram uma prova, para me preparar e estar mais inteiro na alegria.

Cada momento menos positivo, cada dificuldade foi para mim um desafio à espera de ser superado.

E cada derrota foi como um passo atrás, para parar, tomar balanço e dar dois à frente rumo a um novo sucesso.

Foi um ano de pessoas maravilhosas, que entraram pela primeira vez na minha vida, ou que já caminhavam ao meu lado mas passaram a ter um significado renovado.
A todas essas pessoas, obrigado por fazerem parte da minha vida!
Obrigado por me “darem na cabeça” mesmo quando estava a precisar.
Obrigado pelas palavras doces.
Obrigado pelas partilhas de coisas interessantes e por acrescentarem mais cor na minha vida.

A 2013, obrigado.

Agora, que venha 2014! Um ano novinho, como um livro à espera de ser escrito, onde posso escrever a minha própria história!

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Quem é feliz

“Quem é feliz não conta, não espalha, não grita aos quatro cantos. Quem é feliz, satisfaze-se por ser. E sabe que felicidade anda coladinha na inveja. Quem é feliz não precisa provar nada, simplesmente é. As pessoas felizes demais nunca me passaram confiança. Essa coisa de que a vida é uma festa e não existe nada errado, não me brilha aos olhos. Feliz é quem conhece o lado ruim e o respeita. Feliz é quem já foi infeliz. Somente quem já foi infeliz pode entender que a tristeza traz um punhado muito bom de aprendizados. O oba-oba de quem nunca se deixou entristecer não serve na minha vida. Felicidade não é sobre quem grita mais alto; é sobre quem sorri mais fundo.”

Camila Costa

Os homens querem fugir?

“Os homens querem fugir – e fazem mal. As mulheres querem confiar – e fazem mal.
É nesse desequilíbrio, igualado pelo facto de ambos os sexos se darem mal, que se encontra a grande electricidade que nos junta e dá pica e desconjunta.
A maior parte dos homens – sobretudo os mulherengos – morre sem saber o que é receber o que uma mulher pode dar. Uma mulher inteira – alma e tudo – pesa mais do que dois homens.
É mais profunda e, ao mesmo tempo, mais volúvel. Não tem a obsessão pela escolha e pela definição que têm os homens. É volátil. Quer voar. Quer evaporar-se. Quer sair dali para fora e ser outra coisa.”

Miguel Esteves Cardoso, in Como é Linda a Puta da Vida

A Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

As tentações

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto,
onde esteve durante quarenta dias, e era tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome.
Disse-lhe o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se transforme em pão.» Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito: Nem só de pão vive o homem.»
Levando-o a um lugar alto, o diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do universo
e disse-lhe: «Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver.
Se te prostrares diante de mim, tudo será teu.»
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.»
Em seguida, conduziu-o a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo,
pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, a fim de que eles te guardem;
e também: Hão-de levar-te nas suas mãos, com receio de que firas o teu pé nalguma pedra.»
Disse-lhe Jesus: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus.»
Tendo esgotado toda a espécie de tentação, o diabo retirou-se de junto dele, até um certo tempo.

Evangelho segundo S. Lucas 4,1-13